SÃO PAULO — O jornal investigativo salvadorenho El Faro enfrenta exílio de sua equipe, vigilância e queda nas receitas comerciais durante o governo de Nayib Bukele. Carlos Dada, cofundador e diretor da organização, afirmou que fazer jornalismo no país ficou mais difícil e que os profissionais passaram de independentes a dissidentes.
Dada participou de uma conversa neste domingo (6), na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Ele está exilado na Holanda, enquanto o El Faro opera na Costa Rica. O jornalista disse que a organização enfrenta uma “tempestade perfeita”: a receita comercial quase desapareceu, ao mesmo tempo em que aumentaram os gastos com defesas jurídicas e outros custos administrativos.
“Ninguém quer colocar anúncios na nossa plataforma e acabar brigando com um ditador”, afirmou Dada. Segundo ele, a equipe ainda busca maneiras de manter o trabalho e o contato com as fontes, mesmo sob intimidação e monitoramento do governo.
Pressão sobre jornalistas e fontes
Os profissionais passaram a recorrer a métodos presenciais para falar com suas fontes. Dada relatou que, no primeiro ano da gestão de Bukele, funcionários públicos foram submetidos a polígrafos para que o governo tentasse descobrir quem colaborava com a imprensa. Para o jornalista, as fontes correm mais riscos e precisam ser protegidas.
Durante o governo de Bukele, El Salvador caiu da 38ª para a 143ª posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa. A política de prisão em massa de membros de gangues é apontada no relato como executada sem respeito aos direitos humanos e ao estado democrático de direito.
Em 2020, documentos e depoimentos de integrantes da MS-13, também conhecida como Mara Salvatrucha, levaram o El Faro a revelar negociações e troca de benefícios entre o governo e membros de gangues. Cinco anos depois, surgiram novas revelações sobre a proximidade entre o círculo de Bukele e esses grupos.
Jornalistas do El Faro também foram hackeados pelo software israelense Pegasus. Dada processou o fabricante em uma corte californiana, e o processo continua em andamento. A equipe ainda relatou monitoramento por drones, inclusive com a entrada de um aparelho pela janela do escritório do jornalista.
Apesar da pressão, Dada disse que o jornal pretende continuar ligado à população salvadorenha e evitar que o exílio transforme a organização em um veículo voltado apenas para exilados. “A gente não será paralisado por medo. Enquanto tivermos a possibilidade de responder, isso é um trunfo.”








