SÃO PAULO — A imprensa ucraniana enfrenta pressão para reduzir críticas ao governo e pode ter credenciais de repórteres revogadas, afirmou Olga Rudenko, editora-chefe do jornal digital The Kyiv Independent.
Durante participação na 10th edição do piauí Journalism Festival, em São Paulo, Rudenko disse que o governo de Volodymyr Zelensky tem mais mecanismos para limitar o trabalho jornalístico. Ela afirmou que uma reportagem considerada prejudicial à imagem da Ucrânia pode levar à retirada das credenciais de jornalistas e impedir sua atuação na linha de frente.
Rudenko trabalhou no Kyiv Post até 2021. Segundo ela, a equipe deixou o jornal depois de se recusar a reduzir as críticas ao presidente ucraniano, sob pressão do proprietário, o empresário Adnan Kivan. Depois, Rudenko e outros jornalistas fundaram o The Kyiv Independent, que publica diariamente notícias sobre a Ucrânia em inglês.
A jornalista também afirmou que drones mudaram as estratégias de segurança usadas durante a cobertura da guerra. Na avaliação dela, nenhum local é totalmente seguro para produzir reportagens, gravar vídeos ou tirar fotos. Bombardeios também atingem áreas distantes da linha de frente, e jornalistas podem precisar sair de casa após explosões e sirenes para registrar o que acontece nas ruas.
Pressão e financiamento
Quando as tropas russas invadiram a Ucrânia em 2022, a redação do The Kyiv Independent ainda era pequena e recente. Parte dos colegas de Rudenko deixou Kyiv com as famílias, enquanto outros decidiram permanecer perto das áreas de combate.
A editora disse que ucranianos se sentem abandonados pelo Ocidente. Ela também afirmou que jornalistas e cidadãos comuns passaram a ter essa percepção em relação aos europeus. Para Rudenko, jornais da Itália, da Polônia e de outros países europeus deveriam mostrar ao público que a guerra não é um acontecimento distante.
O The Kyiv Independent é financiado principalmente pelo apoio dos leitores. De acordo com Rudenko, o vínculo com o público é direto: quando alguém cancela a assinatura, a equipe pergunta o motivo. Ela atribuiu o interesse dos assinantes ao trabalho de cobrir a guerra e explicar a Ucrânia para pessoas de fora do país, sempre em inglês.
Apesar das restrições, Rudenko avaliou que existe mais liberdade de imprensa na Ucrânia do que colegas estrangeiros costumam imaginar. Para ela, essa liberdade foi conquistada por jornalistas de gerações anteriores, mas permanece frágil.









