SÃO PAULO — A imprensa indiana perdeu pluralidade e espaço para questionar autoridades, segundo Manisha Pande, diretora editorial do site Newslaundry. Para ela, a mudança começou com a chegada de Narendra Modi ao cargo de primeiro-ministro, em 2014.
Pande afirma que Modi não concede entrevistas coletivas desde então. As declarações do primeiro-ministro, segundo ela, aparecem principalmente nas redes sociais ou em conversas com artistas, marcadas por perguntas sobre preferências pessoais, como comida e amizades. A jornalista diz que o objetivo do Newslaundry é diferenciar esse formato do jornalismo baseado na cobrança de autoridades.
Controle da narrativa
A jornalista descreve a repressão à imprensa na Índia como um processo sem demonstrações ostensivas de força. Embora muitos jornais continuem funcionando, ela afirma que os veículos estão alinhados ao governo. A compra, no fim de 2022, do canal New Delhi Television pelo magnata Gautam Adani, próximo de Modi, teria marcado o fim do pluralismo nos meios de comunicação tradicionais.
Na televisão, Pande identifica três ideias recorrentes: Modi seria o melhor acontecimento da história da Índia; a oposição seria controlada pelo Paquistão ou pela CIA; e os muçulmanos seriam inimigos do povo.
O Newslaundry tenta desmontar essas narrativas com reportagens e com o programa TV Newsance, exibido no YouTube. A atração combina notícias, sátira e crítica de mídia. Pande afirma que o humor ajuda a tratar os temas com leveza e evita que a cobertura pareça um sermão.
A Índia ocupa a 157ª posição entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa. Em 2015, Pande e o jornalista Sandeep Pai usaram a Lei de Direito à Informação para obter documentos sobre transações consideradas sensíveis, envolvendo políticos e empresas estatais. Ela avalia que uma investigação semelhante seria difícil hoje porque a legislação praticamente deixou de funcionar.
Novas formas de financiamento
Desde maio deste ano, jovens insatisfeitos com a educação e o desemprego organizaram a Cockroach Janta Party, ou CJP, em uma mobilização que satiriza o partido de Modi. O movimento começou no Instagram, chegou às ruas e foi reprimido pelas forças de segurança.
Os manifestantes recusaram a cobertura da imprensa tradicional por temerem distorções. O Newslaundry foi bem recebido, enquanto emissoras de televisão tradicionais foram expulsas dos locais de protesto.
Pande diz que a insatisfação dos jovens com o discurso único aumentou a busca por jornalismo plural. O Newslaundry sobrevive apenas com assinaturas, sem publicidade ou dinheiro estatal. Para a jornalista, o sucesso está em ajudar o público a enxergar os fatos com mais clareza, além da polarização ideológica.








