Carlos Pereira Xavier voltou a disputar uma eleição no Distrito Federal, mesmo com um novo julgamento criminal marcado para 9 de setembro deste ano. Filiado ao Democracia Cristã, ele tenta uma vaga de deputado distrital enquanto o processo sobre a morte de Ewerton da Rocha Ferreira continua em aberto.
Xavier perdeu o mandato em 2004, quando foi cassado pela Câmara Legislativa em meio às acusações de que teria encomendado a morte do adolescente, então com 16 anos. Ele foi condenado a 15 anos de prisão por homicídio, mas a sentença foi anulada em 2024, após revisão criminal. O ex-deputado nega ter sido o mandante.
Em declaração sobre o caso, Xavier afirmou: “Para mim, que sou criado na igreja, a vida quem dá é Deus e só ele tem o dever e o poder de tirar, mais ninguém.” A direção nacional do Democracia Cristã informou que ainda não tem posição oficial sobre a candidatura e que vai avaliar a situação após o novo julgamento.
Mandato e processo criminal são situações diferentes
O especialista em direito eleitoral Fernando Neisser explica que uma cassação por quebra de decoro não depende necessariamente da existência de uma ação criminal. Da mesma forma, uma punição eleitoral não representa automaticamente uma condenação criminal nem produz, por si só, os mesmos efeitos na disputa eleitoral.
Antes da cassação, Xavier participou da criação da lei que instituiu o Dia do Evangélico no Distrito Federal, celebrado em 30 de novembro. A data integra o calendário oficial do Distrito Federal.
Outros políticos também tentam retornar às urnas em 2026 após cassações, decisões de inelegibilidade ou mudanças judiciais. Em Roraima, Jalser Renier teve o mandato cassado por quebra de decoro em fevereiro de 2022, após ser apontado como suposto mandante do sequestro dos jornalistas Romano dos Anjos e Luana Leão. Em agosto de 2025, assumiu a presidência do Avante no estado. Depois, passou ao PSDB.
Em março de 2026, o Supremo Tribunal Federal havia mantido a inelegibilidade de Jalser até 2030. Em agosto, porém, o ministro Kassio Nunes Marques autorizou sua participação na eleição deste ano enquanto o caso é analisado. Jalser disputa novamente uma vaga na Assembleia Legislativa de Roraima.
Mudanças na inelegibilidade
Fernando Francischini foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral em outubro de 2021, após transmitir nas redes sociais alegações de fraude nas urnas eletrônicas durante a eleição de 2018. O tribunal apontou abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e declarou o político inelegível por oito anos.
Em 2026, Francischini disputa uma vaga de deputado federal pelo Partido Liberal. A candidatura foi beneficiada pela Lei Complementar 219/25, sancionada em setembro de 2025. A norma passou a contar a inelegibilidade desde a eleição em que ocorreu o abuso, pelo período de oito anos, ao mesmo tempo que a perda de direitos políticos. A mudança também fixou um limite de 12 anos para a retomada dos direitos.
O Supremo Tribunal Federal volta a discutir as alterações em setembro. Cármen Lúcia e Luiz Fux já votaram contra as mudanças. A decisão pode afetar candidaturas ainda em 2026.
José Roberto Arruda também recorreu à nova regra para tentar voltar ao governo do Distrito Federal. O Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal negou o registro da candidatura. Arruda afirmou que vai recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral e que continuará a campanha.
Arruda perdeu os direitos políticos por condenações em ações de improbidade administrativa relacionadas ao período em que governou o Distrito Federal, entre 2007 e 2010. Segundo a Justiça, ele foi condenado por comprar apoio de deputados distritais com propina e apontado como mentor de um esquema de desvio de dinheiro público. Também teve de devolver R$ 3 milhões aos cofres públicos.
Decisões revertidas e novas candidaturas
Rubinho Nunes foi cassado em primeira instância após divulgar, durante as eleições municipais de 2024, um suposto laudo médico atribuído a Guilherme Boulos. Em novembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo reverteu a decisão por entender que não havia gravidade suficiente para a pena. Rubinho permaneceu no cargo e disputa uma vaga de deputado federal em 2026.
Deltan Dallagnol, eleito deputado federal pelo Paraná em 2022, perdeu o mandato menos de um ano depois por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. A corte entendeu que ele deixou o Ministério Público Federal em novembro de 2021 em um contexto que poderia evitar consequências disciplinares. Na época, ele não foi declarado inelegível.
Em agosto, o Ministério Público Eleitoral se manifestou a favor da candidatura. Dallagnol disputa uma vaga ao Senado pelo Paraná em 2026.
Uma pesquisa Datafolha de junho de 2026 indicou que 23% dos eleitores lembravam em quem haviam votado nas eleições de 2022 para senador, deputado federal e deputado estadual. O levantamento não mediu especificamente a lembrança de cassações, processos ou escândalos.
A cassação pode interromper um mandato ou atingir o registro de uma candidatura. Já a inelegibilidade impede temporariamente alguém de ser candidato, mas não elimina o direito de votar ou de se filiar a um partido. As situações precisam ser analisadas separadamente pela Justiça.








