A passagem da bicicleta para a corrida pode afetar principalmente os primeiros metros do percurso. Estudos com triatletas identificaram mudanças no movimento, na passada e no desempenho logo após o ciclismo — mesmo quando os atletas já tinham experiência nas duas modalidades.
O treino brick foi criado para reproduzir essa situação: pedalar e correr em sequência, com pouco intervalo entre as atividades. A proposta é tornar mais familiar a sensação de sair da bicicleta e encontrar um novo padrão de movimento.
O que muda na corrida
Uma revisão sistemática com 39 estudos concluiu que a maioria das pesquisas encontrou algum prejuízo no desempenho da corrida feita depois do ciclismo, em comparação com uma corrida isolada. Os efeitos fisiológicos e biomecânicos, porém, variaram bastante. Por isso, os estudos não apontam uma única explicação para a dificuldade.
Em uma pesquisa com 22 triatletas bem treinados, os participantes fizeram uma corrida isolada e outra depois de 40 km de ciclismo. Após o pedal, eles levaram, em média, 679 metros para superar a fase inicial de adaptação do movimento. Na corrida sem ciclismo anterior, essa distância foi de 294 metros.
O estudo também encontrou maior variação no movimento depois da bicicleta, mas não uma mudança completa na técnica de corrida. Pesquisas anteriores observaram ainda alterações na atividade do músculo tibial anterior em parte dos atletas. A resposta, no entanto, não foi igual entre todos os participantes.
Intensidade do pedal pesa no resultado
A maneira de pedalar também pode influenciar o que acontece na corrida seguinte. Em um estudo, triatletas fizeram uma sessão de ciclismo com grandes variações de potência e depois correram 9,3 km. Nesse cenário, o tempo foi, em média, 42 segundos mais lento do que após um pedal com esforço mais constante. A maior parte da diferença apareceu na primeira metade da corrida.
Outro experimento, com dez triatletas treinados, registrou desempenho menor na corrida após o ciclismo e uma redução de aproximadamente 10 centímetros no comprimento da passada. Cadência, tempo de contato com o solo e frequência cardíaca média não apresentaram diferenças significativas.
O que o brick pode desenvolver
A prática combinada não mostrou uma vantagem geral em todos os resultados. Durante seis semanas, um estudo comparou o treinamento convencional com sessões que alternavam múltiplos blocos de ciclismo e corrida. O treino específico não melhorou mais o desempenho total das duas modalidades, mas apresentou vantagem na transição e nos primeiros 333 metros de corrida.
A revisão indica que há justificativa para treinar a mudança entre as modalidades, mas ainda não define qual combinação de intensidade, cadência na bicicleta ou estratégia de treinamento é melhor para a corrida seguinte.
Para quem está começando, a corrida depois do pedal pode ser curta e controlada. A atenção deve ficar na postura, no ritmo e na adaptação das pernas. Volume e intensidade podem subir progressivamente conforme a experiência, o condicionamento e o objetivo competitivo.
O treino combinado não precisa transformar todo pedal em uma corrida forte. Ciclismo e corrida continuam exigindo preparação separada, enquanto a sessão conjunta aumenta a carga total. A função do brick é aproximar o treino de uma transição que faz parte da prova e ajudar o atleta a se adaptar aos momentos iniciais da corrida.








