SÃO PAULO — A disputa dentro do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo capítulo após decisões de André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da Polícia Federal. O episódio colocou no centro da crise o ministro indicado por Jair Bolsonaro e ampliou a atenção sobre o papel da corte na eleição presidencial de 4 de outubro.
Na terça (8), Mendonça suspendeu o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, depois que um relatório de inteligência com suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes foi divulgado. Na quarta (9), Dino determinou o retorno de Rodrigues ao cargo. Sem citar Mendonça, afirmou que juízes devem evitar ações “que possam ser usadas para alimentar propaganda política, comícios, eventos de campanha ou outras formas de instrumentalização política partidária”.
Mais tarde, Edson Fachin, presidente do STF, cassou as liminares dos dois ministros sobre a permanência de Rodrigues. Fachin também suspendeu o caso relatado por Mendonça que resultou no relatório da PF sobre supostos vínculos do banqueiro Daniel Vorcaro com Moraes, Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Uma sessão do plenário foi convocada para a próxima terça para discutir os próximos passos.
Apoio na direita
Mendonça passou a ser tratado como uma das principais vozes de um bloco conservador no STF. Na segunda (7), milhares de pessoas foram à Avenida Paulista, em São Paulo, apoiar Flávio Bolsonaro. Um balão gigante com a imagem de Mendonça dominou a multidão, embora o ministro não estivesse no evento.
O mestre de cerimônias pediu que os participantes rezassem pelo ministro, chamando-o de “corajoso e arrojado”. Mendonça é o único integrante assumidamente evangélico da corte e foi indicado por Jair Bolsonaro, que prometeu escolher um juiz “terrivelmente evangélico”.
A possibilidade de mudança no tribunal aumenta o peso da eleição. O próximo presidente poderá indicar pelo menos três ministros para o STF, que tem 11 integrantes. As nomeações podem alterar o equilíbrio ideológico da corte por anos.
Relatório e reações
O relatório policial foi produzido a pedido de Mendonça e citou mensagens que Daniel Vorcaro teria enviado a Moraes, incluindo um possível plano de fuga. Vorcaro era dono do Banco Master, instituição envolvida em uma investigação de fraude bilionária e liquidada pelo Banco Central.
Moraes pediu uma investigação contra Mendonça por suposto abuso de autoridade depois que o documento se tornou público. O ministro também é responsável por investigações que envolvem Flávio Bolsonaro e o filho mais velho de Luiz Inácio Lula da Silva.
Fontes do STF, da PF e da Procuradoria-Geral da República demonstraram preocupação com possíveis efeitos políticos das decisões de Mendonça. Dois aliados do ministro rejeitaram a avaliação de que ele atua para favorecer Flávio Bolsonaro e o descreveram como independente.
Uma dessas pessoas lembrou que Mendonça ordenou uma investigação criminal contra Flávio por suspeitas de repasses de Vorcaro para um filme sobre Jair Bolsonaro. O ministro também supervisiona investigações envolvendo o filho mais velho de Lula por tráfico de influência.
Trajetória
Antes de chegar ao STF, Mendonça trabalhou na Advocacia-Geral da União (AGU) e coordenou acordos de leniência de grandes empresas relacionados à operação Lava Jato. Bolsonaro o nomeou para chefiar a AGU em 2019, o tornou ministro da Justiça em 2020 e o indicou para o Supremo em 2021.
Por anos, Mendonça evitou confrontos públicos e raramente participava de eventos organizados por colegas em Brasília. Pessoas próximas afirmam que ele passou a buscar maior coordenação entre ministros sobre decisões recentes. Na terça (8), dois integrantes da corte apoiaram rapidamente a suspensão de Rodrigues.
Em um sermão realizado em uma igreja de São Paulo, no final de agosto, Mendonça disse que um líder íntegro é “alguém em quem você pode confiar”. Também afirmou que há momentos para ser um “cordeiro” e outros para ser um “leão”.








