A sexualidade pode continuar presente depois dos 50, 60 e 70 anos, mesmo com mudanças no corpo, na rotina e na forma de construir o desejo. Histórias de mulheres maduras e dados de estudos apontam que afeto, intimidade e autonomia seguem ligados à qualidade de vida.
Um estudo publicado na Revista de Ciências da Saúde Nova Esperança mostrou que 51% dos idosos que se declararam sexualmente inativos ainda consideravam o sexo importante. Entre os que permaneciam ativos, 94,4% disseram estar satisfeitos após a relação.
A influenciadora Fátima Taffo conta que passou boa parte da vida concentrada nos papéis de esposa e mãe. Casada por 20 anos e mãe de quatro filhos, ela diz que deixou a própria vida em segundo plano. Depois de uma paixão pelo médico que cuidava de seu pai, começou a reconhecer novamente o próprio desejo.
A relação durou seis meses e foi interrompida por causa da culpa, já que Fátima ainda era casada. Mais tarde, o divórcio e o fim do medo de engravidar abriram espaço para novas experiências. Hoje, ela não tem parceiro, mas afirma que isso não significa abrir mão da sexualidade.
A sexóloga Cátia Damasceno explica que a maturidade costuma ser associada à perda de beleza, sensualidade e desejo. Para ela, porém, o envelhecimento modifica a maneira como a sexualidade é vivida, sem determinar o fim do prazer. “Você não precisa voltar aos 20. Você precisa descobrir quem você quer ser agora”, aconselha.
Patrícia Parenza, aos 56 anos, afirma que nunca precisou redescobrir a sexualidade. Depois de alguns namoros e dois casamentos de oito anos, diz que sempre tratou o tema com naturalidade. Para ela, a principal mudança veio na forma como o desejo se constrói: na maturidade, passou a depender mais da conexão, do comportamento e da relação entre o casal.
A menopausa também pode alterar a resposta sexual. Ressecamento vaginal, dor, mudanças nos tecidos genitais e impacto na libido, no sono e no humor estão entre os efeitos citados. Cátia ressalta, no entanto, que hormônios não explicam todas as dificuldades. Corpo, saúde íntima, mente, relacionamento, autoestima e rotina também influenciam.
O médico Victor Hugo Veiga afirma que o desejo tende a ficar mais reativo, surgindo a partir da proximidade. Doenças cardiovasculares e neurológicas, diabetes, depressão, ansiedade, incontinência urinária, dor crônica, sedentarismo, tabagismo, álcool, alimentação inadequada e alguns medicamentos também podem interferir na função sexual.
Mudanças súbitas, dor ou sofrimento durante as relações merecem avaliação profissional. A disfunção erétil pode ser um marcador precoce de doença cardiovascular, enquanto a queda do desejo pode estar ligada à depressão.
A jornalista Zilta Marinho, de 70 anos, se casou novamente na maturidade. Ela reencontrou Edson depois de anos e oficializou a união durante a pandemia, quando tinha 64 anos e ele, 75. A relação, segundo Zilta, é construída com afeto, respeito às limitações do tempo e novas rotinas.
Em 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística registrou mais de 74 mil casamentos de pessoas acima dos 60 anos. A Associação Americana de Aposentados aponta que 1 em cada 6 adultos com mais de 70 anos mantém uma rotina de sexo semanal.
Para Veiga, falar sobre sexualidade nos consultórios deve fazer parte do cuidado integral. Tratamentos para desconfortos da menopausa podem incluir hidratantes, lubrificantes, terapia hormonal avaliada caso a caso e fisioterapia para o assoalho pélvico.
As experiências reunidas mostram que envelhecer não exige abandonar o desejo. A intimidade pode assumir novas formas, com mais atenção à conexão, à liberdade e ao conhecimento do próprio corpo.








