A reta final da campanha colocou o endividamento das famílias no centro da estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A nove dias do primeiro turno, o presidente anunciou o fim das bets e uma nova edição do Desenrola, tentando transformar medidas econômicas em votos.
Flávio Bolsonaro (PL) também mudou o ritmo da campanha. O senador ampliou a articulação com aliados para buscar eleitores fora da base bolsonarista, mas precisou dividir espaço com a reação a uma notícia falsa sobre Nossa Senhora Aparecida. O caso Master e os conflitos no Supremo Tribunal Federal (STF) acrescentaram pressão às duas candidaturas.
Lula muda o foco da economia
No início da campanha, Lula apresentou dados como desemprego recorde, inflação dentro da meta e a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. A avaliação de petistas, porém, foi que os resultados macroeconômicos não eram percebidos no cotidiano de parte do eleitorado.
A campanha passou a destacar uma economia mais próxima do orçamento doméstico. Entre as medidas citadas estão o fim do imposto federal sobre as “blusinhas”, a defesa da redução da escala 6×1 e o novo Desenrola. A proibição das bets foi associada ao endividamento das famílias.
Flávio classificou a decisão como “estelionato” e questionou o anúncio feito a nove dias da eleição. A medida contra novos depósitos nas plataformas tem efeito imediato, mas elas só deixarão de funcionar em 6 de outubro. Já a renegociação de dívidas pelo Desenrola depende de etapas posteriores.
A estratégia econômica passou a ocupar mais espaço na reta final, enquanto Lula manteve a defesa da soberania nacional e da trajetória política do governo. A cautela na exposição pessoal do presidente continuou, mas o ritmo de divulgação das medidas aumentou.
Flávio tenta ampliar a base
A campanha de Flávio passou a priorizar a mobilização de eleitores. Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Ricardo Nunes (MDB) ganharam participação na articulação de agendas e na mobilização de aliados em bairros da capital paulista onde a esquerda costuma vencer.
Uma agenda chamada de “super segunda” estava prevista para o dia 28, com a participação dos três na capital paulista. O encerramento da campanha seria no sábado (3), com uma motociata.
A estratégia tenta preservar a identificação de Flávio com o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, diminuir a resistência entre indecisos e eleitores de centro. A participação dos aliados reforça a estrutura de busca por votos, enquanto o senador mantém uma imagem mais moderada para alcançar quem não se identifica diretamente com o grupo político do pai.
Esse movimento foi afetado pela notícia falsa de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Segundo a Palver, 37% das mensagens analisadas trataram a narrativa como verdadeira. O levantamento, porém, não mede quantos eleitores acreditaram no boato.
A deputada Simone Marquetto (PP), identificada com o eleitorado católico, foi acionada para rebater a informação. A campanha também avaliou atribuir a disseminação do conteúdo a petistas. Em uma notícia-crime apresentada ao Ministério Público Eleitoral, a defesa pediu a prisão preventiva de George Marques, servidor da Secom acusado de incentivar a circulação da publicação falsa.
Janja e Geraldo Alckmin também se manifestaram em defesa das tradições religiosas. Lula afirmou: “Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”.
Caso Master chega às campanhas
O caso Banco Master passou a envolver personagens ligados às duas candidaturas. O entorno de Lula acompanhava episódios relacionados a Lulinha e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente.
Mensagens atribuídas ao advogado Walfrido Warde, nas quais ele afirma que Lula agradeceu a Daniel Vorcaro por um whisky e enviou um abraço, ampliaram os questionamentos. O Planalto nega a versão.
Jaques Wagner (PT-BA) também foi citado. Vorcaro o acusou de receber propina em uma proposta de delação rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por insuficiência de provas. O senador nega as alegações.
Flávio vinha explorando o chamado “efeito Moraes”, mas passou a enfrentar uma investigação autorizada por André Mendonça sobre sua atuação em negociações para financiar o filme Dark Horse, biografia de Jair Bolsonaro. O candidato nega irregularidades e diz que os recursos da produção tiveram origem privada.
A campanha considera a investigação um risco controlado, mas avalia que novos conteúdos podem surgir com o avanço das apurações. O episódio criou uma frente defensiva para Flávio, que também tenta usar o caso Master nas críticas ao STF.
A retirada de sigilo determinada por Mendonça, as divergências sobre o acesso às provas e os questionamentos envolvendo Alexandre de Moraes ampliaram o conflito entre ministros. A disputa passou a envolver tanto as mensagens de Vorcaro quanto os limites de decisões individuais e a divulgação das informações.
Com isso, Lula tenta aproximar os resultados econômicos do governo do dia a dia do eleitor, enquanto Flávio usa a estrutura de aliados para ampliar sua base sem perder o apoio bolsonarista. As duas campanhas também precisam responder a acontecimentos que não estavam no centro do planejamento eleitoral.








