A rede estadual de São Paulo caiu da 8ª para a 10ª posição no ranking nacional do Ideb do Ensino Médio regular. O resultado de 2025 também ficou abaixo dos índices registrados em 2019, antes da pandemia, segundo dados divulgados pelo Ministério da Educação (MEC).
A média paulista foi de 4,3. Considerando o Ensino Médio integrado à educação profissional, o estado chegou a 4,5 e ficou em 8º lugar entre as unidades da Federação.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) classificou os resultados como “avanço consistente”. A pasta destacou que os anos iniciais do Ensino Fundamental tiveram o melhor desempenho desde 2019, com o estado em quinto lugar no país, e informou que a frequência escolar alcançou 91,1% em 2025.
Professores e entidades sindicais, porém, contestam a avaliação oficial e criticam a prioridade dada a metas, plataformas digitais e testes padronizados. Um docente da rede estadual na região do Grajaú, na zona sul da capital, resumiu a rotina nas escolas: “O dia a dia vira quase uma fábrica de produzir atividades digitais e o processo de aprendizagem é ignorado.”
Matrículas e ensino integral
Dados do Censo Escolar mostram que a rede estadual perdeu 256,9 mil estudantes do Ensino Médio entre 2024 e 2025, uma redução de 17%. A queda foi de 8,3% no 1º ano, 18,5% no 2º ano e 25% no 3º ano. Nas redes estaduais do país, a retração média foi de 6,6%.
Professora Bebel, deputada estadual e presidenta licenciada da Apeoesp, relaciona o recuo à expansão do Programa Ensino Integral (PEI), à redução de turmas noturnas e à diminuição da oferta na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ela afirma que estudantes que precisam trabalhar não têm apoio financeiro para permanecer na escola.
Pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Rede Escola Pública e Universidade (Repu), Fernando Cássio também associa a queda à redução do ensino noturno e da EJA. Ele afirma que estudantes com 18 anos ou mais são transferidos do Ensino Médio regular para a EJA, inclusive em modalidades a distância, o que altera o grupo avaliado nas provas oficiais.
A Seduc-SP informou que a taxa de abandono caiu para 3,5% e que ações de busca ativa e acompanhamento de frequência levaram cerca de 300 mil alunos a mais para as salas de aula diariamente.
Escolas cívico-militares e concessões
O Programa de Escolas Cívico-Militares alcança 100 unidades em 88 municípios paulistas. Um levantamento baseado em dados oficiais apontou que 74 dessas escolas já tinham desempenho no Ideb acima da média da rede estadual antes da adesão ao modelo.
Em fevereiro, a 13ª Vara de Fazenda Pública da Capital suspendeu, por meio de liminar, trechos do regimento do programa. A decisão foi tomada em ação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Defensoria Pública e citou potencial discriminatório de regras sobre vestimenta, cabelo e comportamento. Também foi proibida a atuação de policiais militares em aulas ou em funções disciplinares no lugar de professores.
A Seduc-SP diz que a responsabilidade pedagógica e administrativa continua com os profissionais da educação. O governador Tarcísio de Freitas afirmou que os monitores militares ensinam “postura, civismo e respeito”.
Na infraestrutura, a Seduc-SP e a Secretaria de Parcerias e Investimentos (SPI) avançaram em uma PPP para construir e administrar 33 escolas em 29 municípios. A secretaria afirma que a concessionária cuidará apenas dos prédios e da manutenção, sem interferir no currículo ou nas diretrizes pedagógicas.
Plataformas digitais e professores
Aplicativos como Leia, Matific e Elefante Letrado integram a rotina da rede. A Seduc-SP informou que todas as escolas têm conexão de, no mínimo, 100 Mbps e que 13,9 mil profissionais receberam formação tecnológica em 2026.
Levantamento da Fundacentro com entidades de saúde e educação apontou que 97,6% dos profissionais entrevistados associam o adoecimento mental e físico às exigências do trabalho digitalizado. Pesquisas da Repu, segundo Fernando Cássio, não encontraram relação entre o uso das plataformas e melhora no desempenho dos estudantes.
A política salarial também é alvo de críticas. A Seduc-SP afirma que paga o piso nacional do magistério por meio de abono complementar. A pasta informou que 70,6% das horas/aula são dadas por professores efetivos e que 17,1 mil aprovados no concurso de 2023 foram nomeados. Outro concurso foi autorizado para 5 mil vagas, com ingresso em 2028.
Bebel contesta a manutenção do abono e a presença de temporários da Categoria O. Segundo ela, há 146 mil cargos vagos e 140 mil aprovados aguardando convocação. A Seduc-SP afirma que a avaliação de desempenho tem função diagnóstica e formativa, com oferta de suporte e capacitação pela Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (Efape).
Educação inclusiva
Professores e representantes sindicais também relatam dificuldades no atendimento a estudantes neurodivergentes e com deficiência. Bebel cita salas superlotadas e afirma que famílias recorrem à Justiça para conseguir professores auxiliares. Janaína de Paula relata perda de espaço para salas de recursos especializadas.
A Seduc-SP informou que a rede possui 24.231 professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE) e 25.648 profissionais de apoio escolar. A previsão é receber mais 21 mil profissionais de apoio no segundo semestre de 2026 para auxiliar alunos elegíveis em locomoção, higiene e alimentação.









