MADRI — A crise habitacional virou o principal tema do debate político na Espanha após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos. Ela foi retirada do apartamento onde vivia havia sete décadas, depois que a empresa proprietária tentou elevar drasticamente o aluguel. A idosa foi internada após o despejo e morreu na quarta-feira.
O caso impulsionou mobilizações por moradia e contribuiu para que o presidente do Governo, Pedro Sánchez, antecipasse as eleições gerais. Na Puerta del Sol, centenas de manifestantes estão acampados há dez dias contra os preços dos imóveis.
“Há anos que os aluguéis e a venda de casas viraram uma completa loucura. É impossível comprar, alugar qualquer coisa”, disse Beatriz Blanco, trabalhadora autônoma de 37 anos.
Aluguéis pressionam renda
Madri lidera o ranking mundial de cidades cobiçadas pelo mercado imobiliário de luxo em 2025 e 2026, segundo a rede Barnes. A cidade tem cerca de 10 mil apartamentos de habitação social para 3,5 milhões de habitantes, e parte dessas unidades é distribuída por sorteio.
O salário bruto médio na Espanha é de cerca de 2.460 euros, ou aproximadamente 14 mil reais mensais. Os pagamentos costumam ser feitos em 14 parcelas. Já o aluguel médio de um apartamento de 50 metros quadrados em Madri chegou a 1.170 euros, equivalentes a 6.534 reais, em setembro. O valor representa quase metade da renda bruta média e fica acima dos 30% recomendados por órgãos públicos e profissionais do setor imobiliário.
Plataformas de aluguel turístico, como o Airbnb, e fundos de investimento são apontados por muitos espanhóis como responsáveis pela alta dos preços. Eles comprariam imóveis e reduziriam a oferta para moradores.
A crise financeira de 2008 provocou a perda de um milhão de empregos na construção, afirma Jorge Galindo, diretor do Centro de Políticas Econômicas da escola de negócios Esade. Para ele, a oferta de moradias não acompanhou a demanda.
Em 2023, o governo aprovou uma lei com previsão de mais moradias populares, limite para aluguéis em zonas tensionadas e sanções a proprietários de imóveis vazios. A medida não conteve a alta dos preços. As maiores centrais sindicais convocaram greve geral para 11 de novembro por melhores salários e uma moradia digna.









