Um tribunal argentino aprovou nesta sexta-feira (4) um acordo que permite a devolução de “Retrato de uma Dama” a Marei von Saher, única herdeira sobrevivente do negociante de arte judeu holandês Jacques Goudstikker. A obra foi roubada durante a Segunda Guerra Mundial e era considerada perdida havia décadas.
Patricia Kadgien, filha do oficial nazista Friedrich Kadgien, e o marido dela, Juan Carlos Cortegoso, abriram mão de qualquer reivindicação sobre a pintura. Os dois foram acusados de receptação qualificada no ano passado, depois que autoridades afirmaram que o casal escondeu o quadro mesmo sabendo que ele era procurado por investigadores argentinos e internacionais.
Pelo acordo, Patricia e Cortegoso evitam um julgamento criminal e permanecem sob supervisão judicial por dois anos. Nesse período, também deverão fazer pagamentos a um hospital de Mar del Plata, onde moram, e informar às autoridades onde estão.
Obra foi encontrada em anúncio imobiliário
A busca pelo retrato ganhou novo capítulo em agosto de 2025. Repórteres holandeses que investigavam Friedrich Kadgien, oficial nazista foragido que fugiu para a Argentina após a guerra, viram a pintura em um anúncio online da casa de sua filha, em Mar del Plata. O quadro aparecia sobre um sofá de veludo verde.
O anúncio foi retirado poucas horas depois da publicação das descobertas. A polícia fez buscas no imóvel, mas não encontrou a obra. Mais de uma semana depois, o advogado de Kadgien entregou a pintura às autoridades.
Durante décadas, o retrato foi atribuído ao italiano Giuseppe Vittore Ghislandi. Uma perícia da Academia Nacional de Belas Artes da Argentina, determinada pela Justiça, concluiu que a obra foi feita por Giacomo Antonio Melchiorre Ceruti.
Especialistas confirmaram que a pintura fazia parte da coleção de Goudstikker e estimaram seu valor em cerca de 250.000 de euros (R$ 1,49 milhão). A coleção do negociante foi vendida sob coação a oficiais nazistas após a invasão da Holanda pela Alemanha de Adolf Hitler, em 1940.
Goudstikker morreu em um naufrágio enquanto fugia de Amsterdã com a família, em maio de 1940. Estima-se que 1.100 obras de sua coleção tenham sido vendidas ilegalmente a Hermann Göring, braço direito de Hitler.
Não está claro como o retrato chegou a Kadgien, que era consultor financeiro de Göring. Ele morreu na Argentina em 1978 sem ter sido preso ou acusado de crimes de guerra.
Von Saher concordou que a obra seja exibida na Argentina antes da devolução. Em buscas feitas no ano passado em imóveis de Kadgien e da irmã dele, em Mar del Plata, a polícia também apreendeu duas pinturas do século 19, além de gravuras e impressões. As autoridades investigam se essas peças também foram saqueadas durante a guerra.








