Os ataques de 11 de setembro de 2001 abriram um período de forte ingerência dos Estados Unidos na diplomacia internacional. A reação de Washington passou a incluir invasões, destituições, sequestros e ações contra instituições vistas como ameaças a seus interesses.
O impacto foi além das Torres Gêmeas. A atuação norte-americana alterou regiões inteiras e abalou a soberania de países, enquanto o sistema multilateral, que havia ganhado força na década de 1990, perdia espaço diante da Casa Branca.
Pressão sobre a Opaq
O Iraque se tornou um dos principais alvos. O governo de George W. Bush defendia a existência de armas químicas no país e usava o argumento para sustentar a derrubada de Saddam Hussein. A Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), porém, se ofereceu para vistoriar as instalações.
A possibilidade de uma saída diplomática ameaçava a justificativa para a guerra. José Maurício Bustani, brasileiro que comandava a Opaq desde 1997 e havia sido reeleito por unanimidade, afirmava que as armas tinham sido destruídas após a Guerra do Golfo de 1991. A organização também dizia que o Iraque não tinha capacidade para repor os estoques por causa das sanções.
John Bolton articulou uma campanha para retirar Bustani do cargo, sob a justificativa de má gestão. Um sistema de escutas foi encontrado atrás de um quadro na sala do diplomata, em Haia. Em 21 de abril de 2002, uma reunião especial da Opaq votou seu afastamento: 48 países foram favoráveis, sete contrários e 43 se abstiveram.
Anos depois, tribunais da OIT decidiram que a saída ocorreu sem justificativa. Para os Estados Unidos, no entanto, a queda de Bustani abriu caminho para a guerra no Iraque e mostrou a capacidade de interferir em um organismo internacional.
ONU também foi atingida
Após a queda de Bagdá, a ONU aceitou participar da reconstrução do Iraque. Sérgio Vieira de Mello foi enviado ao país em 2003 como representante oficial do secretário-geral Kofi Annan. A escolha ocorreu sob pressão dos Estados Unidos, que buscavam dar legitimidade à nova etapa.
Vieira de Mello dizia que a ONU não fazia parte das potências ocupantes e criticava a atuação norte-americana. “Imagine como nós, brasileiros, nos sentiríamos com tanques estrangeiros em Copacabana”, afirmou em uma entrevista de 17 de agosto daquele ano.
Dois dias depois, em 19 de agosto de 2003, uma bomba em um caminhão atingiu o escritório da ONU em Bagdá. O ataque matou o diplomata brasileiro e mais 20 pessoas.
Em setembro de 2004, Annan classificou a ofensiva dos Estados Unidos como “ilegal”. A declaração provocou reação em Washington. Depois disso, a CIA retomou um dossiê sobre corrupção em programas da ONU que envolvia o filho do secretário-geral.
A crise afetou Annan, que entrou em depressão, perdeu a voz por motivos emocionais e passou a faltar a reuniões. A ONU enfrenta hoje a mais grave crise de credibilidade de seus mais de 80 anos, em um processo de enfraquecimento que começou após 11 de setembro de 2001.








