SÃO PAULO — A jornalista venezuelana Luz Mely Reyes afirmou que ainda não vê condições para voltar a morar na Venezuela. Diretora e cofundadora do Efecto Cocuyo, ela disse que a repressão contra a imprensa continua no país, mesmo após a captura de Nicolás Maduro.
Reyes participou de uma mesa do Festival piauí de Jornalismo, realizada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. O encontro reuniu jornalistas de sete países e discutiu a condução de redações em períodos de crise.
Cobertura desde o exílio
Exilada em Austin, nos Estados Unidos, Reyes coordena uma equipe formada por jornalistas que vivem fora e dentro da Venezuela. Após receber relatos sobre ataques em Caracas, o grupo passou a checar as informações e transmitiu os acontecimentos pela internet por mais de dez horas.
Os profissionais que permaneciam na Venezuela não apareceram diante das câmeras para preservar a identidade deles. Durante a transmissão, a equipe confirmou a captura de Nicolás Maduro e divulgou a informação.
O Efecto Cocuyo foi criado em 2015 por Reyes, Laura Weffer e Josefina Ruggiero. O site é mantido principalmente por doações e chamadas públicas. Bloqueado na Venezuela por sua cobertura crítica do governo de Maduro, o portal só pode ser acessado no país por meio de conexões de VPN.
Restrições e exílio
Segundo Reyes, dezenas de meios de comunicação tiveram suas licenças canceladas nos últimos anos. Ao menos 470 jornalistas vivem atualmente no exílio. Ela afirmou que, sob Delcy Rodríguez, jornalistas não conseguem fazer perguntas diretas a ministros e funcionários porque eles não respondem.
A jornalista esteve na Venezuela por 21 dias para observar a situação do país. Durante a viagem, viu os efeitos de um terremoto que deixou mais de 6.000 mortos. Em uma área costeira próxima a Caracas, 180 prédios de moradias sociais foram destruídos, deixando milhares de pessoas desalojadas.
Reyes também relatou ter encontrado crianças sem os pais e avós sem os filhos. Na avaliação dela, a faixa da população em idade média deixou o país e a esperança por uma transição democrática diminuiu.
A jornalista afirmou ainda que a Venezuela é governada por Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Diosdado Cabello, ministro do Interior, Justiça e Paz, seria o único defensor restante da revolução bolivariana.
Reyes disse que a presença dos Estados Unidos no país tende a aumentar nos próximos anos e demonstrou desconfiança em relação aos planos de Donald Trump para a Venezuela.








