A trajetória de Getúlio Vargas não cabe facilmente na divisão entre direita e esquerda. O político comandou o Brasil por quase duas décadas, em dois períodos distintos, combinando centralização do poder, nacionalismo, intervenção econômica e concessão de direitos aos trabalhadores urbanos.
Poder central e Estado Novo
Vargas chegou ao governo com a Revolução de 1930, que marcou o fim da República Velha, dominada pelas oligarquias rurais de São Paulo e Minas Gerais. Sua aliança reunia tenentes, setores das classes médias urbanas e dissidentes regionais. O objetivo era modernizar o país, fortalecer o governo federal e deslocar o eixo econômico do campo para a indústria.
A partir do golpe de 1937, o Estado Novo assumiu caráter ditatorial e conservador nos costumes. O governo fechou o Congresso Nacional, extinguiu os partidos políticos e suprimiu liberdades individuais. Inspirado em modelos corporativistas europeus, usou o nacionalismo para colocar o Estado acima das disputas partidárias e de classe.
O controle também atingiu a imprensa. O Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) censurava jornais e rádios, além de produzir cartilhas e noticiários oficiais que exaltavam o presidente.
Direitos trabalhistas sob controle do Estado
A intervenção na economia servia ao projeto de segurança e autonomia nacional. A criação da Petrobras, da Vale do Rio Doce e da Companhia Siderúrgica Nacional buscava garantir infraestrutura para a industrialização do setor privado sem dependência de capital estrangeiro.
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), de 1943, ampliou direitos como férias, salário mínimo e jornada regulamentada. Ao mesmo tempo, vinculou os sindicatos ao Ministério do Trabalho. Com isso, o Estado passou a controlar as relações trabalhistas e a limitar a mobilização independente dos trabalhadores.
Esse modelo ficou associado ao populismo e à imagem de Vargas como o "Pai dos Pobres". As medidas sociais conviviam com a vigilância sobre a classe operária e com a busca por estabilidade para acelerar a industrialização.
Repressão a adversários de diferentes correntes
Durante a década de 1930, Vargas enfrentou a polarização entre a Ação Integralista Brasileira, de inspiração fascista, e a Aliança Nacional Libertadora, liderada por comunistas. Após a Intentona Comunista de 1935, o governo prendeu e torturou opositores como Luís Carlos Prestes e Olga Benário.
Em 1938, quando os integralistas tentaram um levante para exigir participação no poder, o governo também reprimiu o movimento. A atuação contra grupos de esquerda e de extrema-direita mostra que o regime não aceitava opositores, independentemente de sua posição ideológica.
Ao voltar ao poder de forma democrática em 1951, Vargas adotou um discurso voltado à soberania nacional e à proteção dos mais pobres. No segundo mandato, entre 1951-1954, criou o monopólio estatal do petróleo, enfrentou o capital estrangeiro e tentou aumentar o salário mínimo em 100%.
Essa combinação explica por que o varguismo é reivindicado por grupos políticos diferentes. O legado reúne proteção legal ao trabalhador, incentivo à indústria nacional, defesa do patrimônio público e um Estado centralizador. A mesma trajetória também inclui censura, perseguição policial, concentração de poder e controle dos sindicatos.






