Um grupo ligado a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, teria obtido informações sigilosas sobre investigações contra o banqueiro em sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal, do Banco Central e da Polícia Civil. A Polícia Federal também aponta indícios de acesso a dados relacionados ao FBI e à Interpol.
O caso aparece em um relatório de 164 páginas, datado de 27 de fevereiro deste ano e enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero. O sigilo da investigação foi levantado após pedido do presidente do STF, Edson Fachin.
Estrutura paralela
A PF identifica o grupo como “A Turma”, uma estrutura de vigilância, coerção e milícia privada que seria mantida por Vorcaro. Segundo os investigadores, o banqueiro pagava R$ 1 milhão por mês pelo serviço.
Um dos integrantes apontados é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado no documento de Felipe Mourão e “Sicário”. Ele teria sido contratado para acessar, de forma recorrente e irregular, procedimentos sigilosos em andamento em órgãos públicos, usando logins funcionais de terceiros.
O relatório reproduz conversas de WhatsApp e descreve consultas sem autorização, extração de documentos e tentativas de ocultar a identidade de servidores. Em uma busca pelo CPF de Vorcaro, foram localizados 15 procedimentos no MPF, sendo 11 sigilosos. Os envolvidos também pesquisavam os termos “BRB AND MASTER”.
O BRB é investigado pela compra de títulos financeiros fraudulentos do Master. Em uma mensagem, Vorcaro respondeu “Quero tudo. Atenção total” após ser questionado sobre a consulta de processos relacionados às duas instituições.
Consultas na PF e no exterior
A PF afirma que a estrutura também teve acesso ao ePol, sistema oficial de Polícia Judiciária da instituição, exclusivo para policiais federais. O relatório cita uma imagem de 15 de setembro de 2025 enviada a Sicário pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva.
Em 15 de fevereiro de 2024, Vorcaro encaminhou a Sicário uma mensagem sobre um inquérito na PF. Quarenta minutos depois, Mourão enviou um áudio de Marilson, que afirmou que havia feito contato com a “Tropa” e que daria atenção especial ao pedido. Marilson foi preso em 4 de março de 2026, em Belo Horizonte, na 3ª fase da operação.
A PF relata ainda que, em 24 de outubro de 2025, Mourão encaminhou uma imagem com o logotipo da Interpol e mensagens sobre uma pesquisa. A organização informou que a identidade visual não correspondia aos mecanismos de busca disponibilizados pela Interpol, mas admitiu a possibilidade de o material ter origem em sistemas de outros países com dados baixados da organização.
O relatório também menciona o FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, e afirma que as evidências indicam acesso a organismos internacionais. A PF considera possível que a consulta tenha sido feita por um sistema estrangeiro e conclui que não se trataria de um usuário brasileiro.
Banco Master
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, por causa de crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e violações às normas, segundo o BC.
O BRB participou de tentativas de salvar o Master, mas os negócios entre os bancos deixaram a instituição pública em situação crítica, com necessidade de R$ 8,8 bilhões. O Banco Central barrou a venda do Master ao BRB, enquanto o relatório da PF aponta relacionamento ilícito entre Vorcaro e dois diretores do BC.
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e em março de 2026, por ordem do STF. A situação permanece mantida. Sicário também foi preso, mas morreu dois dias depois, após uma tentativa de suicídio na prisão.
Além da obtenção de informações, a PF afirma que o grupo era usado para atos de violência, coação e intimidação, incluindo planejamento e possível execução de agressões físicas e mobilização de pessoas armadas.







