A fumaça dos incêndios florestais na Indonésia avançou para países vizinhos e afetou a qualidade do ar em Malásia, Singapura, Filipinas e sul da Tailândia. No estado malaio de Sarawak, escolas precisaram fechar temporariamente por causa da poluição atmosférica.
O Ministério da Saúde da Indonésia informou mais de 170.000 casos de doenças respiratórias nas províncias de Sumatra e Bornéu. A fumaça também atingiu a fauna: as autoridades resgataram cerca de 100 animais ameaçados pelas chamas, entre eles 53 orangotangos, segundo um representante do Ministério das Florestas.
Área queimada
Dados oficiais indicam que mais de 202.000 hectares foram destruídos pelo fogo entre janeiro e julho. A área equivale a quase três vezes o tamanho de Jacarta e representa alta de 69% em relação ao mesmo período do ano anterior.
As autoridades não atualizaram essa estatística desde então. Um levantamento do projeto Nusantara Atlas, baseado em monitoramento por satélite, apontou que quase 896.000 hectares haviam queimado até o final de agosto.
Seca e ação humana
O El Niño costuma provocar períodos de seca na Indonésia, e o episódio atual pode estar entre os mais intensos das últimas décadas, segundo especialistas. O fenômeno, porém, não é apontado como causa única dos incêndios.
"O El Niño não é a causa, mas sim um fator que agrava o problema. Sempre precisa haver algo que provoque o incêndio", explicou Ati Dwi Nurhayati, professora de silvicultura da Universidade IPB.
Queimadas para exploração de terras e décadas de degradação florestal também deixaram a paisagem mais vulnerável. Nas áreas de turfa, quase 100% dos incêndios são provocados pela atividade humana, de acordo com a professora.
As turfeiras são formadas por camadas densas de matéria orgânica. Muitas foram drenadas para uso agrícola, o que criou áreas inflamáveis. Depois de começar, o fogo pode permanecer latente e voltar a se espalhar durante dias.
A ONG Pantau Gambut detectou mais de 212.000 focos de incêndio em turfeiras nos primeiros oito meses do ano, mais que o dobro do registrado durante o episódio do El Niño de 2015.
Resposta do governo
A Indonésia enviou bombeiros e voluntários para as áreas atingidas. Malásia e Japão ofereceram ajuda. As autoridades revogaram as licenças de cinco empresas acusadas de contribuir para os incêndios e suspenderam as licenças de dezenas de outras.
O presidente Prabowo Subianto ordenou a criação de uma agência para proteger turfeiras e manguezais e reforçar a prevenção. Uma estrutura semelhante havia sido criada após os incêndios de 2015, que destruíram mais de dois milhões de hectares e causaram prejuízos estimados em 16,1 bilhões de dólares (83,6 bilhões de reais), segundo o Banco Mundial. O mandato terminou em 2024 e não foi renovado.
A nova agência é alvo de críticas. Para Putra Saptian, da Pantau Gambut, o foco deve estar na gestão das turfeiras, e não apenas na criação de outra estrutura.









