Um contrato de R$ 427 milhões vinculava o escritório da advogada Camilla Ramos a ações que poderiam liberar R$ 8,5 bilhões em precatórios de interesse de Daniel Vorcaro. O pagamento seria feito apenas em caso de êxito nos processos em tribunais superiores.
O contrato e mensagens sobre o acordo estão em um HD enviado pela Polícia Federal ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, em julho. Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes pediram acesso ao arquivo na última semana. Mendonça nega que tenha direcionado a análise para Alexandre de Moraes.
Quem aparece nas mensagens
Assessores de Vorcaro usavam a expressão “Turma do KN” para se referir ao desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e à mulher dele, Camilla Ramos. Nas conversas, Newton repassava pedidos atribuídos a Kassio Nunes Marques e tratava do andamento dos processos sobre precatórios.
Entre os pedidos, aparecem reserva de hospedagem no hotel Fasano, acesso a eventos, entradas para a Fórmula 1, viagens de avião e camarote na Sapucaí. Em uma mensagem, um auxiliar de Vorcaro informa: “Fasano Itaim essa sexta a sábado para KN”. Em outra, uma assessora atribui a Newton o pedido de uma diária para o ministro. Vorcaro autorizou: “Pode botar na minha conta”.
As mensagens também registram pedidos ligados ao Carnaval de 2025, incluindo uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, e deslocamento em jato particular para o aniversário de Camilla Ramos, em Maceió. A casa foi alugada por R$ 1,45 milhão durante uma semana. O imóvel pertence ao ator Márcio Garcia e havia sido anunciado por R$ 250 milhões.
Valor e processos
O escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia foi contratado para atuar em 12 processos relacionados a indenizações pelo controle de preços feito pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. O Banco Master aparece como credor ou cessionário dos créditos.
O acordo previa honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco. O pagamento deveria ocorrer até cinco dias depois da obtenção dos valores. O documento também permitia ao escritório receber diretamente da União a parcela correspondente e inscrever precatórios em seu próprio nome.
As mensagens indicam comemoração de Camilla Ramos após voto de Kassio Nunes Marques em um julgamento. Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin reconheceram o débito; Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. O ministro havia declarado impedimento, mas depois mudou de posição.
Newton Ramos afirmou que Camilla atua em causas cíveis para o Banco Master e que a relação com Vorcaro era anterior aos fatos investigados. Também disse que nunca julgou processo de interesse do banco.
Kassio Nunes Marques negou ter votado a favor de Vorcaro ou do Banco Master, ter trocado mensagens com o banqueiro ou ter feito pedidos a ele. Afirmou ainda que estava impedido inicialmente por uma anotação da Secretaria e que depois entendeu não haver impedimento técnico, por se tratar de uma tese ampla.








