A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) identificou risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras deste ano. Um relatório reservado, enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, também aponta tendência de aumento da pressão americana sobre o Brasil.
O documento classifica a possibilidade de interferência externa com um “nível de criticidade” e relaciona o cenário à prioridade do segundo governo de Donald Trump de reafirmar a influência dos Estados Unidos na América Latina. A avaliação menciona a tentativa de afastar rivais americanos, como a China, de ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região.
Tarifas e sanções
A pressão sobre o Brasil inclui medidas econômicas e políticas. Desde abril de 2025, produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos passaram a sofrer tarifas. Inicialmente, a cobrança foi de 10% para vários países. Em 30 de julho, Trump assinou uma Ordem Executiva que classificou o Brasil como “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos EUA” e elevou a tarifa total para 50%.
Entre as justificativas estavam decisões da Justiça brasileira sobre redes sociais, incluindo a Rumble e o X, além da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O governo americano considerou o processo uma perseguição política.
Os Estados Unidos também aplicaram a Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes e à advogada Viviane Barci Moraes. A medida prevê bloqueio de contas, ativos e aplicações financeiras nos Estados Unidos, restrições a transações com empresas americanas e impedimento de entrada no país. Em dezembro de 2025, os nomes de Moraes e de sua esposa foram retirados da lista de sancionados.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes também tiveram os vistos de entrada cancelados.
Novas cobranças e facções
Após a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar tarifas globais impostas por Trump, o governo americano anunciou novas cobranças contra o Brasil. Em 22 de julho, foi aplicada uma sobretaxa de 25%, que atingiu 19% das exportações brasileiras para o país. Dias depois, outra tarifa, de 12,5%, foi anunciada sob a alegação de falta de mecanismos eficazes contra produtos feitos com trabalho forçado.
Atualmente, parte das exportações brasileiras pode ser tributada em até 37,5%. O governo brasileiro classificou a tarifa de 12,5% como “arbitrária e injustificada”.
Em maio deste ano, os Estados Unidos designaram o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. O governo brasileiro tentou impedir a medida e afirmou que ela poderia abrir caminho para ações militares ou sanções econômicas e financeiras severas.
Contatos entre Lula e Trump
Apesar das divergências, Lula afirma que mantém boa relação pessoal com Trump. Em junho, porém, disse que o presidente americano “fez uma coisa desaforada” ao sugerir novas tarifas durante negociações entre os dois países.
Os presidentes se encontraram após a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, e novamente no mês seguinte, em Kuala Lumpur, na Malásia. O último encontro ocorreu em maio deste ano, em Washington, quando Lula levou documentos para contestar a acusação de práticas desleais na relação comercial e os dois acertaram uma mesa de negociação.
Brasil e Estados Unidos também anunciaram, em abril, um acordo de cooperação contra o tráfico internacional de armas e drogas. Além dos encontros presenciais, os presidentes conversaram por telefone ao menos quatro vezes. A última conversa, com 1h20 de duração, ocorreu em agosto.
Lula e Trump estarão na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima terça-feira (22). Lula abrirá o Debate Geral, seguido pelo discurso do presidente americano. Não há encontro bilateral marcado entre os dois.








