MOSCOU — O temor de uma nova mobilização militar na Rússia levou alguns moradores a deixar o país, retirar dinheiro de contas bancárias e buscar formas de evitar uma eventual convocação. O Kremlin nega que uma nova onda esteja sendo preparada.
Na quinta-feira (3), Vladimir Putin afirmou que a Rússia tem tropas suficientes e que "até hoje, não há nenhum cenário que exigiria uma mobilização". Um dia antes, o presidente havia classificado os rumores como "completa bobagem" e um "ataque de informação contra a Rússia".
Saídas e incerteza
Eradzh, empresário de 36 anos, usou um assistente de inteligência artificial para avaliar as notícias e calcular a possibilidade de uma convocação. Depois, pediu ao programa que encontrasse um voo barato para fora da Rússia. Dentro de uma semana, ele viajaria para o Chipre, onde pretendia ficar pelo menos dois meses.
Alexander, instrutor de academia de 36 anos e ex-integrante de uma unidade especial das Forças Armadas, foi para a Tailândia com a mulher no fim de agosto. Ele disse que estava cansado de "ficar se perguntando infinitamente se isso vai acontecer ou não".
Ilia, engenheiro de 26 anos, decidiu sair depois que o Yabloko, partido que concorria com uma plataforma favorável à paz, foi retirado da disputa eleitoral. Ele também mencionou a escassez de gasolina provocada por ataques ucranianos e relatos de aumento do assédio a viajantes na fronteira.
Outros russos afirmaram não ter dinheiro para deixar o país. Alguns tentam obter residência oficial em Moscou, considerada por muitos uma proteção contra uma convocação. Outros retiraram recursos dos bancos por medo de bloqueios caso recebam uma convocação online e não compareçam a um posto de alistamento.
Recrutamento digital
Muitos avaliam que uma nova convocação seria mais difícil de evitar do que a de setembro de 2022. As ordens para comparecer ao serviço militar passaram a ser entregues eletronicamente. O não cumprimento pode provocar proibições automáticas de deixar o país, suspensão da carteira de motorista e impedimento de realizar transações imobiliárias.
Grigori Sverdlin, fundador do Idite Lesom, grupo que ajuda russos a evitar o serviço militar obrigatório, afirmou que o sistema de penalidades ainda não funciona plenamente por causa da falta de coordenação entre órgãos do governo e de dificuldades técnicas.
O decreto de Putin que determinou a convocação em 2022 continua tecnicamente em vigor. Para parte da população, isso permite que uma nova mobilização ocorra de forma discreta.
Dmitri Kuznets, analista militar, disse que a situação atual na linha de frente é diferente da de 2022. Segundo ele, a Rússia ainda recruta mais pessoas do que perde no campo de batalha, mas não teria dinheiro para pagar convocados em uma nova campanha de grande escala. Kuznets também avaliou que o risco de uma revolta popular poderia superar os possíveis ganhos.
Em agosto, Volodimir Zelenski afirmou que a Rússia planejava convocar 300 mil pessoas após as eleições parlamentares. Ele havia feito previsão semelhante em abril de 2024. O receio também é alimentado por lembranças da mobilização de 2022, quando centenas de milhares de homens deixaram o país e as autoridades interromperam a convocação em questão de semanas.








