O celular não determina sozinho a postura nem explica automaticamente uma dor no pescoço antes do treino. O que pode pesar é o tempo que o corpo fica quase imóvel, especialmente quando cabeça, ombros e braços permanecem na mesma posição por longos períodos.
Ao sair desse estado para correr, pedalar, fazer musculação ou praticar outro esporte, algumas pessoas podem perceber rigidez no pescoço, tensão nos ombros ou dificuldade para movimentar as costas. Isso não significa que o corpo esteja “fora do lugar”. A mudança pode refletir apenas a passagem de pouca movimentação para uma atividade que exige força, estabilidade e coordenação.
O que os estudos mostram
Um estudo longitudinal brasileiro publicado em 2025 acompanhou 396 pessoas e não identificou associação entre a flexão do pescoço durante o uso do smartphone e o surgimento de dor cervical. No mesmo grupo, menor nível de atividade física e pior qualidade do sono apareceram associados a um risco maior de dor no pescoço.
Outras pesquisas experimentais indicam que a forma de segurar o aparelho pode mudar a atividade dos músculos e aumentar a carga na região cervical, nos ombros e na parte superior das costas. Um estudo publicado em setembro de 2026 no Scientific Reports também avaliou posições da cabeça e observou influência da anteriorização da cabeça e da flexão cervical sobre a carga no pescoço.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 encontrou associação entre uso excessivo de smartphones e dor cervical. Outro estudo, publicado em 2026, observou maior tempo diário de uso do aparelho entre pessoas com dor cervical inespecífica. Esses resultados mostram associação, mas não comprovam que o celular tenha sido a causa do problema.
Como chegar melhor ao treino
O aquecimento pode ajudar na transição entre horas sentado e exercícios mais exigentes. A ideia não é corrigir uma suposta postura causada pelo celular, e sim elevar aos poucos a demanda sobre músculos e articulações.
Movimentos leves dos ombros e uma progressão gradual podem ser úteis quando a sensação de rigidez for leve e estiver ligada à imobilidade. Alongamento não é obrigatório para todas as pessoas antes de qualquer treino; a escolha depende da modalidade e do objetivo.
Também não existe um exercício único capaz de desfazer horas de uso de telas. Uma revisão de 2024 analisou 22 estudos e encontrou resultados favoráveis em programas que combinavam fortalecimento e alongamento para determinados padrões posturais. A necessidade de cada pessoa pode ser diferente: melhorar força, controlar movimentos ou simplesmente se mexer mais durante o dia.
O foco é variar o movimento
Alternar posições, levantar, caminhar, fazer pausas e movimentar braços e ombros reduz o tempo em que o corpo fica submetido à mesma demanda. O celular não é a única tela envolvida: computador, tablet e videogame também podem contribuir para períodos prolongados em uma mesma posição.
Durante o próprio treino, olhar mensagens entre as séries pode prolongar o tempo parado e dividir a atenção em exercícios que exigem técnica, equilíbrio ou controle. Nesses casos, a execução adequada deve vir antes do telefone.
Se a dor no pescoço ou nos ombros for persistente, recorrente ou estiver piorando, é indicado buscar avaliação profissional. Perda de força, formigamento persistente, alteração de sensibilidade, dor intensa ou dificuldade importante para movimentar o pescoço e os braços também exigem atenção.
A orientação central é simples: não é preciso abandonar o celular nem procurar uma postura perfeita. Vale evitar horas de imobilidade e construir uma rotina com mais variedade de posições, atividade física e movimento cotidiano.








