A obesidade já atingia 170 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos em 2024, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A prevalência quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%. Diante desse cenário, a entidade publicou ontem dois guias globais: um para crianças menores de 10 anos e outro para adolescentes de 10 a 19 anos.
No Brasil, cerca de 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos convivem com a doença. Entre os jovens de 10 a 19 anos, são cerca de 9,9 milhões, de acordo com dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026.
Tratamento começa sem remédios
Para as duas faixas etárias, a OMS orienta iniciar o cuidado com reorganização da alimentação, atividade física e estratégias comportamentais. Esse acompanhamento deve durar pelo menos seis meses antes da análise de outras alternativas.
As ações precisam levar em conta a idade, o gênero, o contexto cultural e os interesses de cada jovem. A participação dos pais e de outros responsáveis é considerada fundamental pela organização.
Para crianças menores de 10 anos, a OMS não recomenda medicamentos análogos de GLP-1, conhecidos como canetas para obesidade. A entidade aponta falta de evidências sobre os benefícios nessa idade e de dados a respeito de efeitos adversos, crescimento, desenvolvimento físico, parâmetros fisiológicos e saúde mental.
A endocrinologista Maria Edna de Melo, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), afirmou que já existem estudos com liraglutida em crianças de 6 a 11 anos e com semaglutida nessa mesma faixa etária. Segundo ela, a indicação formal depende da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Entre adolescentes de 10 a 19 anos, os medicamentos podem ser considerados quando existem complicações de saúde, como diabetes tipo 2, e não houve resposta às mudanças de hábitos após seis meses.
Cirurgia e saúde mental
A OMS também não recomenda cirurgia bariátrica nem outros dispositivos para perda de peso antes dos 10 anos. A organização avalia que as operações podem prejudicar o desenvolvimento. Para adolescentes, a cirurgia fica como última alternativa, em casos de obesidade grave e quando os demais métodos não funcionaram.
A saúde mental deve ser tratada junto com a obesidade. A OMS cita ansiedade, depressão, baixa autoestima, desregulação emocional, isolamento social, estigma e bullying entre os problemas que precisam ser abordados precocemente, com estratégias adequadas ao desenvolvimento e participação da família.
Para Luz María De Regil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, o cuidado deve se apoiar em alimentação saudável, atividade física e mudanças comportamentais sustentáveis, e não apenas em remédios ou cirurgias.
A organização também recomenda políticas públicas com participação de diferentes áreas do governo, reforço da atenção primária e da cobertura universal, criação de espaços ativos, como ciclovias e praças, e educação em saúde, incluindo alfabetização nutricional.








