NORDESTE DA INGLATERRA — Uma investigação pode ser ampliada para atendimentos realizados desde 2015 depois que uma revisão interna do NHS identificou falhas em tratamentos contra o câncer de mama. Se a expansão for aprovada, até 10 mil prontuários médicos poderão ser reabertos.
A apuração já examinou 514 casos ligados ao County Durham and Darlington Foundation Trust (CDDFT). Ao todo, 315 pacientes sofreram algum tipo de dano, sendo 77 com danos considerados significativos. Uma paciente morreu. Os atendimentos analisados ocorreram entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2025.
A investigação começou após 640 ex-pacientes procurarem uma linha criada pelo CDDFT para receber denúncias e relatos sobre o atendimento. As autoridades ainda devem decidir se os casos anteriores a 2023 entrarão na revisão.
Falhas em decisões médicas
Uma análise do Royal College of Surgeons, feita em 2025, encontrou problemas na forma como os casos eram discutidos na unidade. O relatório apontou pouca participação adequada da equipe de mama nas reuniões multidisciplinares, que deveriam reunir diferentes especialistas antes das principais decisões.
Também foram identificadas decisões baseadas na opinião não questionada de cirurgiões individuais, além de práticas consideradas desatualizadas ou incompatíveis com orientações de boas práticas. Entre os problemas estavam uma taxa elevada de reexcisão, baixa adesão à reconstrução mamária imediata após mastectomias e operações que podem ter sido realizadas rapidamente.
A revisão interna concluiu que vinte mulheres tiveram as mamas removidas sem necessidade. A investigação também encontrou diagnósticos de câncer que não foram feitos ou sofreram atraso. Steve Russell, diretor-executivo do CDDFT, afirmou que alguns desses pacientes apresentaram posteriormente disseminação da doença.
Russell pediu desculpas pelos danos causados. “O que aconteceu foi totalmente inaceitável”, disse. O diretor também reconheceu que houve conflito de interesses na administração dos contratos.
Médico está suspenso
Amir Bhatti comandou os serviços de mama do CDDFT entre 2013 e 2024 e supervisionava os tratamentos de algumas das pacientes afetadas. Ele está suspenso das atividades clínicas, mas continua empregado pelo órgão e recebe salário integral.
Ao longo de seis anos, o CDDFT destinou quase 6 milhões de libras a clínicas privadas de diagnóstico de câncer de mama e a empresas de cirurgia administradas por Bhatti. Uma revisão sobre a gestão do órgão, feita em 2025 por Mary Aubrey, apontou preocupações com o modelo de terceirização e indicou que os contratos poderiam criar riscos para os padrões clínicos.
O atual diretor-executivo disse que o pagamento por serviço não é incomum na área da saúde, mas admitiu problemas na gestão dos acordos. O CDDFT encerrou o contrato para os serviços de câncer de mama.
Relatos de pacientes
Denise Howarth, de 51 anos, de Consett, foi diagnosticada em 2023 com câncer de grau 1 e crescimento lento. Após encontrar um nódulo na mama, ela passou por uma lumpectomia e depois por uma mastectomia, além de oito sessões de quimioterapia e radioterapia.
Em setembro de 2025, Denise recebeu um telefonema do NHS informando que a retirada completa da mama poderia ter sido evitada. Uma segunda lumpectomia teria sido uma alternativa. Em uma carta posterior, o CDDFT reconheceu que essa possibilidade não havia sido discutida com ela.
Jo, identificada por um nome fictício, procurou a linha de atendimento por causa de uma mastectomia realizada em 2021. No início deste ano, recebeu a informação de que o procedimento poderia ter sido evitado. Ex-funcionária do NHS, ela disse que confiava nos profissionais com quem trabalhava.
Pam Brown, de Durham, passou por uma mastectomia em 2022, no Spire Hospital, em Washington. Ela afirma não saber quem realizou a cirurgia. Embora considere que a operação era necessária, relata forte impacto físico e psicológico provocado pelas cicatrizes.
A ex-cirurgiã especializada em câncer de mama Liz O'Riordan avaliou fotografias das marcas e classificou o resultado como “horríveis”. Segundo ela, casos como esse deveriam ser encaminhados para uma cirurgia de revisão.
Análise policial e cobrança por investigação
A Agência Nacional de Combate ao Crime trabalha com a Polícia de Durham para analisar as alegações e verificar se algum crime foi cometido. O CDDFT afirmou que coopera integralmente com as autoridades e fornece informações quando solicitado.
A revisão de Mary Aubrey também levantou a possibilidade de pacientes terem sido atendidos por médicos temporários sem competência adequada. O documento registrou ainda que Bhatti havia relatado repetidamente atrasos do próprio órgão na obtenção de equipamentos essenciais para diagnóstico.
Pacientes e familiares criaram um grupo de apoio que se reúne no Beamish Football Centre, em Stanley. As participantes compartilham experiências, cobram explicações e defendem uma investigação pública.
O Departamento de Saúde e Assistência Social informou que trabalha com o NHS England, a Comissão de Qualidade dos Cuidados e especialistas independentes para entender o que ocorreu. Amir Bhatti disse que não comentará as acusações enquanto a investigação do órgão estiver em andamento.









