SÃO PAULO — A privatização da Sabesp aproximou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) do então vereador Milton Leite, que presidia a Câmara Municipal de São Paulo. A aliança foi selada em um evento na Vila Emir, na zona sul da capital, em 17 de janeiro de 2024.
A cerimônia marcou a primeira fase de implantação da Usina Fotovoltaica Flutuante Araucária, mas o destaque ficou para a relação entre o governador e o parlamentar. Apoiadores de Leite gritavam o nome dele e o chamavam de “lindo”. Tarcísio respondeu com elogios: “Agora, lindão? Mas é o seguinte: eu estava olhando melhor, Milton. Se é para ganhar o coração do Miltão, é lindão mesmo”.
Nesta quinta-feira (17), Leite foi alvo da Operação Vectura Corrupta, que investiga uma possível infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no transporte coletivo. A polícia decretou a prisão do ex-vereador, considerado foragido. Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual pelo partido de Flávio Bolsonaro, foi preso.
A ação tenta localizar 16 pessoas e cumprir 18 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Participam da operação a Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
A Polícia Civil identificou 12 empresas de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC. Os investigadores apontam possível atuação de integrantes e intermediários da facção em empresas e processos de licitação.
Negociações políticas
Antes do evento, Leite, Tarcísio e o prefeito Ricardo Nunes (MDB) negociavam a privatização da Sabesp e as eleições municipais de 2024. O projeto precisava do aval da Câmara porque havia uma cláusula no contrato da empresa de saneamento com o município.
Leite segurava a proposta desde setembro de 2023. Em outubro, criticou a venda da Emae e da Sabesp e disse que não abriria mão dos direitos da cidade de São Paulo.
Em troca do avanço do projeto, Leite buscava recuperar espaço no Palácio dos Bandeirantes e participar da escolha do vice de Nunes. Também usava a pré-candidatura de Kim Kataguiri à Prefeitura para pressionar o prefeito e negociar o apoio do União Brasil, partido que comandava em São Paulo.
Nunes apoiou Ricardo Teixeira (União) para a presidência da Câmara. Tarcísio, por sua vez, garantiu a volta da influência de Leite no governo paulista. A saída de Gilberto Kassab da Casa Civil e a indicação de Arthur Lima, do União Brasil, reforçaram o acordo.
Depois das negociações, a tramitação da privatização avançou na Câmara, e a cláusula que impedia a venda da estatal à iniciativa privada foi derrubada. Há 18 dias, no lançamento das candidaturas de Alexandre Leite e Milton Leite Filho, Tarcísio voltou a elogiar a família do ex-vereador.








