Tom Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo que enfrenta uma catástrofe global em Digger, novo filme de Alejandro González Iñárritu. A produção mistura sátira política, crise ambiental e metalinguagem em uma aposta deliberadamente exagerada — e difícil de classificar como um acerto ou um erro simples.
Digger construiu uma fortuna com combustíveis fósseis e vive cercado por luxo, capangas e símbolos de poder. A rotina muda quando uma rachadura perto de uma instalação de perfuração na Groenlândia ameaça liberar metano do fundo do oceano. O bilionário, porém, está mais preocupado com seu gato em estado terminal, um animal animatrônico.
Pouco depois, uma explosão faz a plataforma de gelo Judy se desprender. Com uma área aproximadamente do tamanho de Boston, a massa avança em direção à Europa e ameaça causar prejuízos de trilhões de dólares, deslocar milhões de pessoas e provocar mortes em grande escala.
Um magnata diante do fim
O cientista federal Ganesh, interpretado por Riz Ahmed, alerta que o desastre pode ser o início de um evento de extinção. O presidente dos Estados Unidos, vivido por John Goodman, reúne militares e conselheiros na propriedade de Digger. Entre as possibilidades discutidas estão bombardear o gelo, rezar e fingir que o problema não existe.
Digger decide agir à sua maneira: com arrogância, discursos grandiosos e a convicção de que ninguém pode resolver a crise sem ele. Cruise constrói o personagem como uma caricatura de um predador corporativo, com figurino extravagante, gestos amplos e até um sotaque associado a Foghorn Leghorn.
A direção de Iñárritu reforça o excesso com planos longos, lentes grande-angulares e imagens acinzentadas. Emanuel “Chivo” Lubezki assina a fotografia, enquanto a trilha sonora contribui para o clima de carnaval sombrio. O resultado parece querer transformar cada cena em uma explosão de absurdo.
A história também acompanha uma camada metalinguística. Elementos de palco, referências a Opening Night, de John Cassavetes, e uma aproximação com Birdman deslocam o filme para uma reflexão sobre cinema, atuação e os bastidores de uma produção. A narrativa passa a funcionar como uma obra de desastre e, ao mesmo tempo, como comentário sobre sua própria construção.
Cruise retoma a disposição para trabalhar com diretores autorais e abandona a imagem mais associada às cenas de ação. O elenco inclui Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons, em papéis ligados à família, ao poder e à tecnologia.
Digger quer falar sobre capitalismo, negacionismo, crise ambiental e a capacidade do cinema de provocar reflexão. Faz isso com inteligência, raiva e excesso. A produção não se acomoda ao escapismo, mas também não encontra equilíbrio: é bagunçada, ambiciosa e tão barulhenta que transforma sua própria mensagem em mais um elemento de confusão.








