A formação de um pacto militar entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão passou a marcar a nova configuração política do Oriente Médio após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. O acordo, criado em 7 de agosto de 2026, prevê que uma agressão contra um dos países seja tratada como um ataque a todos os integrantes.
A avaliação do professor Bruno Huberman, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é que o arranjo mostra o surgimento de um bloco islâmico que não coloca o Irã como principal ameaça regional. Turquia e Arábia Saudita são aliadas dos Estados Unidos, mas a nova aliança não foi estruturada para combater a República Islâmica.
“Importante colocar que esse novo bloco ele não é anti-Irã”, afirmou Huberman. Para ele, o grupo representa uma política de não alinhamento entre Estados Unidos, China e Rússia.
Alianças em disputa
A reorganização também atingiu a relação entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU). Durante a guerra contra o Irã, Riad teria adotado uma postura menos aberta, enquanto os Emirados se aproximaram de Israel e dos Estados Unidos. Huberman avalia que essa ruptura levou à saída dos EAU da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), liderada pela Arábia Saudita.
No Golfo, a divisão envolve os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG): Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Omã e Arábia Saudita. Segundo Huberman, Omã se aproximou do Irã, enquanto os demais integrantes passaram a avaliar se deveriam seguir a posição dos Emirados ou a dos sauditas.
Na leitura do professor, o cenário deixou de ser organizado em dois grandes lados. Israel e Emirados formariam o grupo mais próximo dos Estados Unidos. Arábia Saudita, Paquistão e Turquia ocupariam uma faixa intermediária. O terceiro bloco seria o Eixo da Resistência, opositor de Israel e da política americana na região.
Gaza e a questão palestina
Para Isabela Agostinelli, professora da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), os conflitos iniciados ou ampliados depois de 7 de outubro estão conectados ao ataque do Hamas porque recolocaram a questão palestina no centro das negociações regionais.
A pesquisadora cita a mudança na posição saudita. O país estava perto de normalizar as relações com Israel, mas passou a afirmar que não haveria acordo sem uma solução para a questão palestina.
O ataque contra vilas no Sul de Israel matou cerca de 1,2 mil pessoas. Na sequência, a ofensiva israelense destruiu cidades inteiras na Faixa de Gaza, entre elas Rafah e Khan Yunis, e provocou a morte de mais de 74 mil pessoas. Especialistas classificaram a resposta militar como genocídio.
Agostinelli afirma que Israel ampliou o conflito de Gaza para a Cisjordânia, o Líbano e o Irã com a intenção de alterar a ordem regional. Na análise dela, esse processo estaria ligado ao projeto da Grande Israel, proposta associada ao movimento sionista que prevê a expansão do país do Rio Nilo ao Rio Eufrates, incluindo áreas do Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Arábia Saudita.
Enfraquecimento do Eixo da Resistência
O professor da PUC-SP também aponta perda de força do Eixo da Resistência. A queda do governo de Bashad al-Assad, na Síria, e o enfraquecimento do Hezbollah, no Líbano, reduziram a capacidade do grupo de atuar na região.
“Só tem o Irã como uma força estatal e as demais forças não estatais estão muito enfraquecidas, particularmente o Hamas”, disse Huberman.
Especialistas relacionam o ataque de 7 de outubro aos Acordos de Abraão, negociados por Israel e Estados Unidos para normalizar relações entre países árabes e Tel Aviv. O professor também associa o episódio ao Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC), anunciado em 9 de setembro de 2023.
O projeto ligaria Índia, Emirados, Arábia Saudita, Israel e Grécia. A proposta buscava aproximar a Europa da energia árabe e das mercadorias indianas, reduzindo a dependência de energia russa e produtos chineses. Huberman também cita o avanço da colonização israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental como um dos fatores relacionados à decisão do Hamas.









